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A história da laranja

Nome da fruta – Laranja

Nome científico – Citrus sinensis (L.) Osbeck

Família – Rutaceae

Categoria –

Origem – Ásia

Características da laranjeira – Árvore geralmente com 8 metros de altura, tronco com casca castanho-acinzentada, copa densa de formato arredondado. Folhas de textura firme e bordos arredondados, exalam um aroma característicos quando macerados. Flores pequenas, de coloração alva, aromáticas e atrativas para abelhas.

Fruto da laranjeira – A laranja é um fruto tipo hesperídio, de formato e coloração variável de acordo com a variedade. Frequentemente com a casca de coloração alaranjada, envolvendo uma polpa aquosa de coloração que pode variar entre amarelo-claro e o vermelho. Sementes arredondadas e achatadas, de coloração verde-esbranquiçada.

Frutificação da laranjeira – Durante todo o ano, concentrando-se entre o outono e a primavera.

Propagação da laranjeira – Enxertia e por semente

Segundo Pio Corrêa, o cultivo da laranja e o uso da laranja remontam a um período de mais de 2 mil anos antes de Cristo, conforme demonstram escritos encontrados na China. As laranjas, diz a mitologia grega, eram os verdadeiros pomos de ouro, mantidos muito bem guardados pelo “Dragão de 100 cabeças” no Jardim das Hespérides. Para obtê-los, no cumprimento de seu décimo primeiro trabalho, Hércules lutou incansavelmente. Essa lenda é, no mínimo, uma comprovação da antiguidade dessa fruta – a laranja – na vida e nas culturas humanas.

Supõe-se que a laranja, assim como as demais frutas do gênero Citrus, da família das Rutáceas, seja originária das regiões tropicais e subtropicais do continente asiático e do arquipélago malaio, onde os primeiros homens e mulheres aprenderam a cultivá-la e de onde partiu para conquistar o mundo.

Apesar de toda essa antiguidade e do conhecimento que os gregos tinham das frutas cítricas – laranjas, limas, cidras, limões, pomelos e toranjas -, a sua introdução na Europa foi bastante tardia, não havendo relatos sobre esse fato anteriores ao século 15. Aluns autores, no entanto, afirmam que os árabes já haviam introduzido alumas espécies de frutos cítricos nas penínsulas ibérica e itálica bem antes disso.

Parece que todas as muitas espécies e variedades de laranjas existentes – são cerca de 2 mil diferentes variedades, das quais menos de 100 são cultivadas em grande escala – originaram-se a partir de dez espécies selvagens cruzadas entre si, transformadas, selecionadas, cruzadas novamente e melhoradas no decorrer de séculos de experimentação. Em consequência de sua remota cultura, as formas das laranjas nunca foram encontradas ou se perderam no tempo.

Na América e no Brasil, os indígenas só vieram a conhecer os deliciosos e vitaminados frutos cítricos após a chegada dos europeus. Acredita-se que as primeiras laranjas tenham cruzado o oceano Atlântico já em 1493, na esquadra de Cristóvão Colombo. Em 1561, os espanhóis teriam desembarcado as primeiras sementes, no Panamá e, logo depois, no México.

Existem registros de que, no Brasil, os colonizadores portugueses iniciaram a plantação de laranjas doces nesse mesmo período, provavelmente na Bahia. Aqui, a laranja adaptou-se tão bem ao clima e ao solo que, espalhando-se território adentro, tornou-se espécie selvagem. Alguns viajantes, inclusive, acreditavam que a laranja era fruta nativa.

De acordo com Geraldo Hasse, foi a larga disseminação e a boa adaptação à terra que acabaram produzindo uma variedade particular de laranja, hoje conhecida e produzida em todo o mundo: a Baía, Baiana ou Umbigo. Essa laranja, que teria surgido e sido encontrada no início do século 19, nas proximidades de Salvador, Bahia, foi introduzida e melhorada nos EUA, gerando as conhecidas variedades Navel, palavra que, em inglês, significa umbigo.

Hoje, grande parte das faixas tropical e subtropical do globo transformou-se num verdadeiro cinturão produtor de frutas cítricas, tornando a laranja uma das frutas mais cultivadas em todo o  mundo.

O Brasil é o principal produtor mundial de laranja, sendo também a fruta mais produzida no país. De acordo com dados do IBGE para o ano de 2002, foram cerca de 831 mil ha de terras, alcançando uma produção média de 18,5 milhões de toneladas ao ano. Desse total, a maior parte, destina-se à produção de sucos concentrados para exportação: mais de 80% dos pomares comerciais de laranjas no Brasil produzem frutas para processamento caseiro e comercial de sucos.

A produção brasileira de laranja desenvolveu-se muito a partir da década de 1960, quando uma geada sem precedentes destruiu grande parte das laranjeiras da Flórida, EUA. Maior consumidor mundial de sucos cítricos, os Estados Unidos passaram a demandar importações, o que impulsionou países como o Brasil a investir nessa cultura. E deu certo!

Os produtores  paulistas foram os primeiros a ter condições de entrar nesse mercado. Durante o século 20 e, especialmente, nas últimas quatro décadas, com  instalação e o crescimento dos laranjais, foram bastante notáveis as mudanças ocorridas na paisagem no interior do Estado de São Paulo, que se transformou no principal produtor do país. 80% da produção e 70% da área, em relação ao restante.

Além de São Paulo, vários outros estados brasileiros dispõem de considerável produção de laranjas e demais frutos cítricos, destacando-se Minas Gerais, Sergipe, Paraná e Rio Grande do Sul.

São vastos laranjais florescendo e frutificando de acordo com os padrões de qualidade e produtividade, de maneira a suprir totalmente as necessidades internas e a ocupar uma boa fatia do mercado internacional. Para tanto, o país e seus fruticultores contam com a excelência do trabalho de importantes núcleos de pesquisa, especializados no desenvolvimento, aperfeiçoamento e melhoramento genético das diferentes frutas cítricas, bem como no treinamento e na atualização de profissionais da área, e na busca de soluções para as doenças e pragas que, de tempos em tempos, assolam os laranjais.

Na cidade de Cordeirópolis, em São Paulo, por exemplo, fica o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, órgão ligado ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e considerado o maior centro difusor de pesquisas em citricultura da América Latina. Ali, numa coleção iniciada a quase 70 anos, estão cultivadas cerca de 1900 diferentes tipos e variedades de Citrus, provenientes de todo o mundo, que costumam fornecer matrizes para o país e boa parte da América Latina.

Os negócios e as cifras que envolvem a comercialização de laranjas em nossos dias são vultuosos e, por esse motivo, as espécies e variedades mais cultivadas são aquelas que têm maior valor de mercado.

As variedades de laranjas Pêra Seleta, Valência e Natal são aquelas encontradas durante todo o ano, em praticamente todas as feiras livres, mercados, quitandas e ambulantes pelo país afora. Essas laranjas, mais apropriadas para o aproveitamento do suco, também podem ser consumidas ao natural, combinando deliciosamente com alguns pratos salgados.

As laranjas Baía e Baianinha, assim como as demais laranjas-de-umbigo, são mais adocicadas e melhores para o consumo ao natural. Muito procurada nos mercados europeus, ali a Baía é considerada laranja de mesa por excelência, pois sua consistência e sua firmeza a tornam fruta própria para o consumo elegante e sofisticado, com garfo e faca.

As laranjas mais azedas são bastante utilizadas na culinária de nível internacional, no preparo de molhos para o cozimento e para acompanhamento de carne bovina e suína, aves e peixes, tais como o famoso “canard aux oranges” ou pato com laranja.

Abaixo do Equador, no entanto, as qualidades das várias laranjas são aproveitadas sem tanta cerimônia, a qualquer hora do dia: no desjejum, na sobremesa, no lanche da tarde, à noite e para repor as energias perdidas. Qualquer hora é boa para aproveitar o suco doce, refrescante e vitaminado de uma laranja. Brincadeira de criança, no verão, no quintal da casa da avó, é lambuzar-se ao chupar laranjas descascadas pacientemente pelo avô e, depois, tomar um bom banho de esguicho.

A laranja Lima ou Serra D’água, de menor expressão comercial, é também a mais difícil de ser encontrada. Pouco ácida, muito doce e saborosa, principalmente quando colhida de velhas laranjeiras cultivadas com todo o carinho em pomares bem tratados, é indicada para o suco dos bebês e para o consumo de todos aqueles que sofram com problemas digestivos.

Em todas as suas variedades, trata-se de uma das mais saudáveis frutas do pomar disponível para o consumo dos seres vivos do planeta, fornecendo energia, carboidratos, fibras, proteínas, potássio e muita vitamina C.

Variedades comerciais de laranja

Baía, Pêra, Natal, Valência, Hamlin, Rubi, Seleta e Lima: são essas as principais variedades de laranjas produzidas hoje no Brasil. Muitas vezes, uma mesma variedade pode apresentar grandes diferenças de coloração e sabor, em virtude das condições do clima e do solo da região em que foi cultivada. De maneira geral, as laranjas podem ser separadas em basicamente três grupos: as laranjas-de-umbigo, como a Baía, Baianinha, a Monte Parnaso e as Navelinas em geral; as laranjas comuns, sem umbigo e de suco mais ácido, como a Pêra e a Seleta, entre outras; e as laranjas de baixa acidez, que têm uma relação entre açúcares e ácidos mais elevada, como a Lima, também conhecida como Laranja do Céu, Serra D’água ou Mimo.

Laranjais em flor

As flores da laranjeira, beleza perfumada e branca, tradicional símbolo de pureza virginal, constituem importante especiária aromatizante. A delicada fragrância dessas flores, transformada em essência, é muito utilizada na doçaria. Nas receitas de origem árabe, praticamente todos os doces e caldas levam algumas gotas de essência de flor de laranjeira em sua composição.

Na paisagem do interior paulista, chamam a atenção as enormes extensões de terra repletas de laranjeiras, especialmente nas proximidades das estradas que interligam os municípios de Campinas, São Carlos, São José do Rio Preto, Barretos, Limeira, Bebedouro e Araraquara. Ainda mais quando o perfume próprio das árvores em floração toma e inebria por completo o ar da região.

Fruta gostosa, refrescante, energética e nutritiva, diurética, depurativa: o “elogio da laranja”, como diz Lúcia C. Santos em seu livro sobre boas maneiras e culinária, “já está feito pelo consumo formidável que ela vem alcançando no mundo”. Seus gomos, envoltos pela fina película, são, segundo definição do escritor Fernando Sabino, a melhor, mais prática e duradoura embalagem que a natureza poderia ter criado para o delicioso suco que a fruta encerra.

Feijoada completa

Na feijoada, umas das mais típicas refeições brasileiras, a laranja, em gomos ou em pedaços, é servida à vontade juntamente com feijão, arroz, carnes e couve, sendo indispensável para “cortar a gordura” e atenuar a pimenta, refrescando o paladar.

Fonte: Livro Frutas Brasil Frutas

A história do figo

Nome da fruta – Figo

Nome científico – Ficus carica L.

Família botânica – Moraceae

Categoria – Doce

Origem – Ásia

Características da figueira – Árvore geralmente com até 5 metros de altura, caule tortuoso de casca cinzenta e lisa, ramos frágeis. Folhas recortadas em lobos. Flores muito pequenas, desenvolvendo-se no interior do receptáculo da inflorescência, conhecida como “fruta do figo”.

Fruto da figueira – O figo é um fruto tipo composto, denominado sicônio, é formado pela estrutura carnosa e suculenta de formato piriforme, comestível, de coloração verde-amarelada até roxa, conhecida como “figo”, encerra em seu interior numerosas sementes.

Frutificação da figueira – Conforme a poda, frutifica o ano todo

Propagação da figueira – Estaca

Entre as espécies vegetais cultivadas pela humanidade, a figueira é certamente uma das mais antigas. Para Pio Corrêa, tudo indica que o aproveitamento do figo na alimentação humana é tão antigo “que se perde na noite dos tempos”, havendo registros nesse sentido desde a Idade da Pedra até a Grécia Antiga. Segundo ele, a espécie, no entanto, é originária da Ásia Menor e da Bacia do Mediterrâneo, de onde ainda na Antiguidade, foi levada para outros países distantes.

De acordo com Antônio Roberto Marchese de Medeiros, engenheiro agrônomo da Embrapa, a evolução da figueira em estado selvagem para o de planta cultivada acompanhou os primórdios da civilização. Existem registros de que a fruta era enaltecida por gregos e romanos, que atribuíam ao deus Dionísio ou Baco a introdução do figo e da uva “para a alegria e riqueza da humanidade”. Também no Antigo e no Novo Testamentos existem várias passagens alusivas à figueira, considerada um símbolo de paz e de harmonia.

Com tantas referências históricas, sabe-se também que há muito tempo atrás a figueira já era cultivada nas regiões semi-áridas do sudoeste da Ásia, pelos povos do deserto, tendo sido introduzida no Egito, na Grécia e na Itália quase mil anos antes de Cristo.

Com a expansão do mundo árabe, a figueira foi também levada para a Península Ibérica, estabelecendo-se na Espanha e em Portugal.

Foi assim, com toda a sua história e mistérios, que as primeiras figueiras chegaram às terras brasileiras já no século 16. Verdadeiro símbolo da ocupação da terra pelos colonizadores, as figueiras logo passaram a ser cultivadas lado a lado dos marmeleiros e das laranjeiras.

Figueiras de todos os tipos, muitas delas improdutivas ou geradoras de frutos não comestíveis, espalharam-se por todo o continente. Segundo Pio Corrêa, porém, até o início deste século o plantio do figo bom para comer – o verdadeiro ficus carica – era muito disperso no Brasil e as quantidades produzidas, insignificantes. Embora excelentes variedades de figueiras – originárias, em grande parte, da Espanha, de Portugal e do norte da África – tivessem se aclimatado perfeitamente a diferentes regiões do país, seu cultivo não ultrapassava o limite das chácaras urbanas e dos quintais das fazendas.

Sob a orientação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), logo após a queda da produção cafeeira no início da década de 1930, deu-se um grande impulso à produção de figos associada à de uvas no Estado de São Paulo. Ali, passou a se destacar como produtora a região de Campinas, principalmente os municípios de Itatiba, Valinhos, Louveira e Jundiaí, além de Mogi das Cruzes, sendo algumas delas, até os dias de hoje, as mais produtivas.

Atualmente, o Estado de São Paulo é o maior produtor de figos do país, sendo apenas o município de Valinhos responsável por 90% do total. Normalmente, entre 20 a 40% dessa produção destina-se à exportação, que, em 2003, obteve um valor recorde: países como Inglaterra, França e Alemanha compraram do Brasil cerca de 1,5 milhão de caixas com 24 frutos cada uma.

No interior da casca fina e macia de coloração arroxeada, que se abre pela parte central, esconde-se a massa rosada no centro e esbranquiçada nas bordas. Desmanchando-se na boca, os figos têm um sabor que pode variar entre o insípido e o muito doce, sendo, no entanto, sempre muito refrescante.

Delicados, são frutas que se machucam facilmente, dificultando o acondicionamento, a preservação, o transporte e a comercialização ao natural. Talvez por esse motivo, desde os primórdios de sua utilização pelo homem, aprendeu-se a aproveitar de outras formas as qualidades altamente nutritivas e o sabor sofisticado dos figos.

De acordo com as características das flores, formas de polinização e de frutificação, existem quatro tipos de ficus carica: Caprifigo, Smirna, Comum e São Pedro Branco, sendo as variedades mais cultivadas em todo o mundo pertencentes ao tipo Comum.

No Brasil, ocorre o mesmo: a variedade Roxo de Valinhos (município do interior de São Paulo onde a produção de figos é bastante antiga e volumosa) é a mais cultivada comercialmente e pertence, também, ao tipo Comum. Também conhecida como Brown Turkey, San Piero ou Negro Largo, entre as principais características dessa variedade de figueira está a sua rusticidade que, acrecida do vigor e da boa produtividade que apresenta, a torna cultura bastante lucrativa.

A figueira desenvolve-se bem nas regiões subtropicais temperadas, mas tem grande capacidade de adaptação climática. Pio Corrêa exemplifica elegantemente essa qualidade dizendo que a figueira é capaz de se adaptar “às condições de existência as mais diversas e até as mais opostas”, sendo encontrada “desde a beira-mar, nas dunas ardentes da Líbia, até as planícies frias dos Andes, a mais de 3 mil metros de altitude”.

Essa capacidade de adaptação reflete-se, também, no porte da árvore, que pode variar muito conforme o clima da região em que tenha nascido e o tratamento que lhe for dispensado. Nas regiões próximas ao mar Mediterrâneo que lhes deram existência, quando deixadas à vontade para crescer, as figueiras chegam a atingir o porte de árvores enormes. Por outro lado, quando mantidas sob poda drástica, nos climas do Sul do Brasil, as figueiras podem ser conduzidas de modo a não ultrapassar o porte arbustivo.

Doces figos

De acordo com a sua destinação futura, sejam provenientes de pomares caseiros ou comerciais, os figos devem ser colhidos em diferentes estágios de maturação: os verdes destinam-se basicamente à confecção de doces em calda ou cristalizados; os mais inchados são usados para a produção do figo “rami”, espécie de fruta passa; os maduros ainda não rachados são próprios para a produção de doces em pasta ou da figada de cortar, ou ainda para o consumo ao natural.

O fruto da figueira

O figo, aquele conjunto carnoso avermelhado e completamente comestível, é erroneamente identificado como o “fruto da figueira”. No entanto, todo esse conjunto não passa de uma inflorescência. Ou seja, o figo propriamente dito nada mais é do que o receptáculo carnoso em cujo interior encontram-se os verdadeiros frutos: as minúsculas sementinhas que permanecem envolvidas pelos restos das flores da figueira.

Fonte: Livro Frutas Brasil Frutas

A história da uva

Nome da fruta – Uva

Nome científico – Vitis vinifera L.

Família botânica – Vitaceae

Categoria –

Origem – Europa e Oriente Médio

Características da videira – Trepadeira de caule espesso e resistente, verde quando jovem, tornando-se escuro posteriormente. Folhas grandes divididas em cinco lobos com uma leve pilosidade esbranquiçada em sua superfície. Flores pequenas de coloração creme-esverdeada.

Fruto da videira – A uva é um fruto tipo baga, oval ou arredondado, podendo ser branco, verde, amarelo, vermelho ou azulado de acordo com a variedade. Polpa aquosa, adocicada, que pode envolver quatro sementes de coloração escura.

Frutificação da videira – Geralmente no verão e três safras anuais nas regiões irrigadas do Nordeste brasileiro.

Propagação da videira – Alporque e enxertia.

A videira é uma das plantas frutíferas mais antigas do planeta, encontrando-se vestígios de sua existência em fósseis de épocas geológicas anteriores ao aparecimento do Homo sapiens na Terra.

Apesar de ser conhecida há tanto tempo, a uva só pôde passar a ser cultivada no seio das comunidades que abandonaram o nomadismo, pois trata-se de cultura permanente e de longa duração: alguns vinhedos chegam a produzir por 150 anos.

Ao se fixar na terra, pouco a pouco, de geração em geração, de cultura em cultura, a humanidade foi aprimorando as técnicas de cultivo e processamento da fruta. Pode-se dizer, até, mesmo, que a história da parreira e seus saborosos frutos – as uvas – resume parte da história da civilização ocidental.

No início, a cultura da uva teve um caráter doméstico, expandindo-se do ponto de vista comercial apenas com o desenvolvimento da arte da navegação através do mar Mediterrâneo. Acredita-se que as uvas se originaram na Ásia, sendo introduzidas na Europa através da Península Itálica pelos povos gregos. A sua pátria é, portanto, o Oriente.

A videira

Segundo conta Pio Corrêa, foi por volta do ano 600 a.C que a humanidade aprendeu a podar a videira com o objetivo de obter uma abundante e saborosa carga de frutos, um salto definitivo na melhoria das técnicas de produção da fruta. Diz a lenda que foi uma asno quem, pela primeira vez, experimentou o poder da poda ao comer os ramos e as folhas verdes de uma videira, tornando esse conhecimento possível às próprias comunidades humanas.

Vinho de uva

Fruta delicada, difícil de ser transportada e conservada, exigente de cuidados contínuos: bem cedo os humanos aprenderam a aproveitar os valores e  as delícias embriagantes da uva de outras formas. Por carregar altas concentrações de açucares, o processo de fermentação das uvas gera uma bebida excepcional, de teores alcoólicos variáveis, que se tornou o mais conhecido, consumido e importante entre todos os vinhos de frutas existentes. Sem dúvida, o vinho de uva constitui-se, de fato, desde tempos muito antigos, num produto de enorme significado social e econômico para a maioria das civilizações ocidentais.

Foram os romanos, por sua vez, que transformaram a viticultura em uma atividade lucrativa, enchendo as paisagens mediterrâneas de videiras. As uvas de então, e ainda por vários séculos depois, destinavam-se basicamente à produção de vinho.

Por sua importância na vida humana e pela antiguidade do seu aproveitamento, a videira é planta cheia de significados místico-religiosos. Praticamente todas as civilizações antigas tinham um deus específico para proteger a viticultura: entre os gregos era Dionísio; entre os egípcios, Osíris; e entre os romanos, Baco.

Conta a Bíblia que, na época do dilúvio, os conterrâneos de Noé já plantavam a videira e abusavam do vinho. Nos evangelhos cristãos, a uva é símbolo da sabedoria e, no ritual do sacrifício da missa, o vinho simboliza o sangue de Cristo. Segundo Pio Corrêa, “a videira simboliza a vida humana e o vinho é considerado um dom divino”.

Quanto ao seu emprego, as uvas são divididas, basicamente, em dois grandes grupos: as uvas de mesa e as uvas para vinho, sucos e outros fins industriais.

Desde a Antiguidade até os nossos dias, a maior parte da produção das videiras permanece destinada à industrialização do vinho. Calcula-se que cerca de 80% da produção anual no planeta é transformada em vinho ou em outras bebidas alcoólicas, como “brandy”, conhaque, “armagnac” e “xerez”; cerca de 5% são secos e transformados em uvas passas; e 10% são consumidos ao natural, como sobremesa e por puro prazer.

No Brasil, as uvas chegaram com os primeiros colonizadores portugueses. Por muito tempo, predominou por aqui a ideia de que a rusticidade e as condições ambientais locais jamais permitiriam a cultura da videira, que, em virtude da delicadeza natural da planta, só poderia se desenvolver em climas europeus.

Hoje, no entanto, a viticultura constitui em uma grande fonte de riqueza para o país: de acordo com dados do IBGE, em 2002 o Brasil possuía mais de 65 mil ha ocupados com vinhedos e parreiras comerciais, resultando em uma produção de quase 1,2 milhões de toneladas de uvas; e, segundo dados da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), em 2003, o Brasil produziu cerca de 200 milhões de litros de vinho de uvas.

Os vinhedos começaram a ser cultivados a partir do começo do século 20, por migrantes – especialmente alemães e italianos – que se instalaram nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Muitas cidades foram criadas, muitas parreiras plantadas, modificando, definitivamente, as paisagens serranas e frias do Rio Grande do Sul. Ali se destacam os municípios de Flores da Cunha, Bento Gonçalves, Garibaldi, Santana do Livramento e Caxias do Sul como grandes produtores de uvas e de vinhos de qualidade.

Atualmente, além do Rio Grande do Sul, responsável por cerca da metade da produção nacional de uvas, os estados de São Paulo (especialmente os municípios de São Miguel Arcanjo, Pilar do Sul, Porto Feliz, Vinhedo e Jales), Paraná (Marialva, Açaí, Uraí, Bandeirantes e Rosário do Ivaí), Santa Catarina e o norte de Minas Gerais também produzem boas uvas em grandes quantidades.

Variedades de uvas

Há cerca de 10 mil variedades diferentes de uvas, adaptadas a vários tipos de solos e de clima, o que possibilita o seu cultivo em quase todas as regiões do mundo. Sendo frutas bastante sensíveis às condições de solo e clima em que se desenvolvem, as uvas variam muito de acordo com essas condições, apresentando características que as distinguem segundo o sabor, a acidez, a doçura, o formato, a coloração e a resistência da casca, o tamanho, a quantidade de sementes, a forma e o formato dos cachos.

Uvas especiais de mesa

Ao contrário dos parreirais instalados no Sul do Brasil, além das tradicionais uvas destinadas à produção de vinho, nas regiões irrigadas do Vale do São Francisco, em especial nos municípios de Juazeiro do Norte (BA) e Petrolina (PE), destacam-se as variedades de uvas especiais de mesa, sem semente. São, por exemplo, a Black Seedless (escura), a Crimson (avermelhada) e a Festival Seedless (branca). A maior parte da produção local destina-se à exportação, voltada principalmente para os países europeus.

Nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, pelo volume produzido, destaca-se a produção das seguintes variedades de uvas: Alicante, Schiraz, Ancelata, Ruby Cabernet e Petite Syrah, próprias para a produção de vinhos e sucos; Red Globe, Itália, Niagara Branca e Niagara Rosa (todas com sementes), para o consumo ao natural. Essas últimas são, talvez, as mais conhecidas e tradicionais uvas de mesa brasileiras, sendo produzidas em grandes quantidades nos municípios de Jundiaí e Louveira, em São Paulo.

A partir da década de 1970, o Brasil viveu uma grande transformação na produção de uvas, que se processou quando grandes grupos nacionais e internacionais, através de incentivos governamentais, passaram a investir no desenvolvimento e na instalação de modernos projetos de irrigação em alguns trechos do vale fértil, quente e seco do rio São Francisco.

Inúmeras agroindústrias produtoras de sucos, vinhos e doces que precisam de frutas como matéria-prima foram atraídas para a região do Vale do São Francisco, ampliando ainda mais a oferta de trabalho e alterando profundamente as condições socioeconômicas das populações locais habituadas, há séculos, às dificuldades da seca.

Em poucos anos, as terras nativas do umbu e do mandacaru começaram a produzir frutas de todo tipo, em grande abundância: abacaxi, mamão, abacate, figo, goiaba, maracujá, melão, melancia, carambola, manga, limão, laranja e, é claro, uva.

O potencial agrícola e vinícola dessa região já era, há muito tempo, estimado pelos técnicos, como ressalta o próprio Pio Corrêa ainda no início da década de 1930. A altitude, os excelentes solos cultiváveis, as temperaturas médias anuais sempre altas e a escassez de chuvas e de geadas são condições perfeitas para a produção de frutas saudáveis e sempre doces.

Atravessando terras pertencentes a cinco estados das regiões Nordeste e Sudeste do Brasil (Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia e Minas Gerais), o Vale do São Francisco compõe, atualmente, o maior pomar produtor de frutas do país, destinadas não apenas ao mercado interno, em constante crescimento. Hoje, graças à sua capacidade de produzir frutas de qualidade e doçura excepcionais, apropriadas para o exigente mercado internacional, o Vale tornou-se o principal polo exportador de frutas do país.

Apenas como exemplo, em 2002 a região foi responsável por cerca de 95% de toda a uva exportada pelo Brasil, começando a destacar-se, também, pela qualidade e volume do vinho produzido.

Fonte: Livro Frutas Brasil Frutas