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A história da laranja

Nome da fruta – Laranja

Nome científico – Citrus sinensis (L.) Osbeck

Família – Rutaceae

Categoria –

Origem – Ásia

Características da laranjeira – Árvore geralmente com 8 metros de altura, tronco com casca castanho-acinzentada, copa densa de formato arredondado. Folhas de textura firme e bordos arredondados, exalam um aroma característicos quando macerados. Flores pequenas, de coloração alva, aromáticas e atrativas para abelhas.

Fruto da laranjeira – A laranja é um fruto tipo hesperídio, de formato e coloração variável de acordo com a variedade. Frequentemente com a casca de coloração alaranjada, envolvendo uma polpa aquosa de coloração que pode variar entre amarelo-claro e o vermelho. Sementes arredondadas e achatadas, de coloração verde-esbranquiçada.

Frutificação da laranjeira – Durante todo o ano, concentrando-se entre o outono e a primavera.

Propagação da laranjeira – Enxertia e por semente

Segundo Pio Corrêa, o cultivo da laranja e o uso da laranja remontam a um período de mais de 2 mil anos antes de Cristo, conforme demonstram escritos encontrados na China. As laranjas, diz a mitologia grega, eram os verdadeiros pomos de ouro, mantidos muito bem guardados pelo “Dragão de 100 cabeças” no Jardim das Hespérides. Para obtê-los, no cumprimento de seu décimo primeiro trabalho, Hércules lutou incansavelmente. Essa lenda é, no mínimo, uma comprovação da antiguidade dessa fruta – a laranja – na vida e nas culturas humanas.

Supõe-se que a laranja, assim como as demais frutas do gênero Citrus, da família das Rutáceas, seja originária das regiões tropicais e subtropicais do continente asiático e do arquipélago malaio, onde os primeiros homens e mulheres aprenderam a cultivá-la e de onde partiu para conquistar o mundo.

Apesar de toda essa antiguidade e do conhecimento que os gregos tinham das frutas cítricas – laranjas, limas, cidras, limões, pomelos e toranjas -, a sua introdução na Europa foi bastante tardia, não havendo relatos sobre esse fato anteriores ao século 15. Aluns autores, no entanto, afirmam que os árabes já haviam introduzido alumas espécies de frutos cítricos nas penínsulas ibérica e itálica bem antes disso.

Parece que todas as muitas espécies e variedades de laranjas existentes – são cerca de 2 mil diferentes variedades, das quais menos de 100 são cultivadas em grande escala – originaram-se a partir de dez espécies selvagens cruzadas entre si, transformadas, selecionadas, cruzadas novamente e melhoradas no decorrer de séculos de experimentação. Em consequência de sua remota cultura, as formas das laranjas nunca foram encontradas ou se perderam no tempo.

Na América e no Brasil, os indígenas só vieram a conhecer os deliciosos e vitaminados frutos cítricos após a chegada dos europeus. Acredita-se que as primeiras laranjas tenham cruzado o oceano Atlântico já em 1493, na esquadra de Cristóvão Colombo. Em 1561, os espanhóis teriam desembarcado as primeiras sementes, no Panamá e, logo depois, no México.

Existem registros de que, no Brasil, os colonizadores portugueses iniciaram a plantação de laranjas doces nesse mesmo período, provavelmente na Bahia. Aqui, a laranja adaptou-se tão bem ao clima e ao solo que, espalhando-se território adentro, tornou-se espécie selvagem. Alguns viajantes, inclusive, acreditavam que a laranja era fruta nativa.

De acordo com Geraldo Hasse, foi a larga disseminação e a boa adaptação à terra que acabaram produzindo uma variedade particular de laranja, hoje conhecida e produzida em todo o mundo: a Baía, Baiana ou Umbigo. Essa laranja, que teria surgido e sido encontrada no início do século 19, nas proximidades de Salvador, Bahia, foi introduzida e melhorada nos EUA, gerando as conhecidas variedades Navel, palavra que, em inglês, significa umbigo.

Hoje, grande parte das faixas tropical e subtropical do globo transformou-se num verdadeiro cinturão produtor de frutas cítricas, tornando a laranja uma das frutas mais cultivadas em todo o  mundo.

O Brasil é o principal produtor mundial de laranja, sendo também a fruta mais produzida no país. De acordo com dados do IBGE para o ano de 2002, foram cerca de 831 mil ha de terras, alcançando uma produção média de 18,5 milhões de toneladas ao ano. Desse total, a maior parte, destina-se à produção de sucos concentrados para exportação: mais de 80% dos pomares comerciais de laranjas no Brasil produzem frutas para processamento caseiro e comercial de sucos.

A produção brasileira de laranja desenvolveu-se muito a partir da década de 1960, quando uma geada sem precedentes destruiu grande parte das laranjeiras da Flórida, EUA. Maior consumidor mundial de sucos cítricos, os Estados Unidos passaram a demandar importações, o que impulsionou países como o Brasil a investir nessa cultura. E deu certo!

Os produtores  paulistas foram os primeiros a ter condições de entrar nesse mercado. Durante o século 20 e, especialmente, nas últimas quatro décadas, com  instalação e o crescimento dos laranjais, foram bastante notáveis as mudanças ocorridas na paisagem no interior do Estado de São Paulo, que se transformou no principal produtor do país. 80% da produção e 70% da área, em relação ao restante.

Além de São Paulo, vários outros estados brasileiros dispõem de considerável produção de laranjas e demais frutos cítricos, destacando-se Minas Gerais, Sergipe, Paraná e Rio Grande do Sul.

São vastos laranjais florescendo e frutificando de acordo com os padrões de qualidade e produtividade, de maneira a suprir totalmente as necessidades internas e a ocupar uma boa fatia do mercado internacional. Para tanto, o país e seus fruticultores contam com a excelência do trabalho de importantes núcleos de pesquisa, especializados no desenvolvimento, aperfeiçoamento e melhoramento genético das diferentes frutas cítricas, bem como no treinamento e na atualização de profissionais da área, e na busca de soluções para as doenças e pragas que, de tempos em tempos, assolam os laranjais.

Na cidade de Cordeirópolis, em São Paulo, por exemplo, fica o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, órgão ligado ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e considerado o maior centro difusor de pesquisas em citricultura da América Latina. Ali, numa coleção iniciada a quase 70 anos, estão cultivadas cerca de 1900 diferentes tipos e variedades de Citrus, provenientes de todo o mundo, que costumam fornecer matrizes para o país e boa parte da América Latina.

Os negócios e as cifras que envolvem a comercialização de laranjas em nossos dias são vultuosos e, por esse motivo, as espécies e variedades mais cultivadas são aquelas que têm maior valor de mercado.

As variedades de laranjas Pêra Seleta, Valência e Natal são aquelas encontradas durante todo o ano, em praticamente todas as feiras livres, mercados, quitandas e ambulantes pelo país afora. Essas laranjas, mais apropriadas para o aproveitamento do suco, também podem ser consumidas ao natural, combinando deliciosamente com alguns pratos salgados.

As laranjas Baía e Baianinha, assim como as demais laranjas-de-umbigo, são mais adocicadas e melhores para o consumo ao natural. Muito procurada nos mercados europeus, ali a Baía é considerada laranja de mesa por excelência, pois sua consistência e sua firmeza a tornam fruta própria para o consumo elegante e sofisticado, com garfo e faca.

As laranjas mais azedas são bastante utilizadas na culinária de nível internacional, no preparo de molhos para o cozimento e para acompanhamento de carne bovina e suína, aves e peixes, tais como o famoso “canard aux oranges” ou pato com laranja.

Abaixo do Equador, no entanto, as qualidades das várias laranjas são aproveitadas sem tanta cerimônia, a qualquer hora do dia: no desjejum, na sobremesa, no lanche da tarde, à noite e para repor as energias perdidas. Qualquer hora é boa para aproveitar o suco doce, refrescante e vitaminado de uma laranja. Brincadeira de criança, no verão, no quintal da casa da avó, é lambuzar-se ao chupar laranjas descascadas pacientemente pelo avô e, depois, tomar um bom banho de esguicho.

A laranja Lima ou Serra D’água, de menor expressão comercial, é também a mais difícil de ser encontrada. Pouco ácida, muito doce e saborosa, principalmente quando colhida de velhas laranjeiras cultivadas com todo o carinho em pomares bem tratados, é indicada para o suco dos bebês e para o consumo de todos aqueles que sofram com problemas digestivos.

Em todas as suas variedades, trata-se de uma das mais saudáveis frutas do pomar disponível para o consumo dos seres vivos do planeta, fornecendo energia, carboidratos, fibras, proteínas, potássio e muita vitamina C.

Variedades comerciais de laranja

Baía, Pêra, Natal, Valência, Hamlin, Rubi, Seleta e Lima: são essas as principais variedades de laranjas produzidas hoje no Brasil. Muitas vezes, uma mesma variedade pode apresentar grandes diferenças de coloração e sabor, em virtude das condições do clima e do solo da região em que foi cultivada. De maneira geral, as laranjas podem ser separadas em basicamente três grupos: as laranjas-de-umbigo, como a Baía, Baianinha, a Monte Parnaso e as Navelinas em geral; as laranjas comuns, sem umbigo e de suco mais ácido, como a Pêra e a Seleta, entre outras; e as laranjas de baixa acidez, que têm uma relação entre açúcares e ácidos mais elevada, como a Lima, também conhecida como Laranja do Céu, Serra D’água ou Mimo.

Laranjais em flor

As flores da laranjeira, beleza perfumada e branca, tradicional símbolo de pureza virginal, constituem importante especiária aromatizante. A delicada fragrância dessas flores, transformada em essência, é muito utilizada na doçaria. Nas receitas de origem árabe, praticamente todos os doces e caldas levam algumas gotas de essência de flor de laranjeira em sua composição.

Na paisagem do interior paulista, chamam a atenção as enormes extensões de terra repletas de laranjeiras, especialmente nas proximidades das estradas que interligam os municípios de Campinas, São Carlos, São José do Rio Preto, Barretos, Limeira, Bebedouro e Araraquara. Ainda mais quando o perfume próprio das árvores em floração toma e inebria por completo o ar da região.

Fruta gostosa, refrescante, energética e nutritiva, diurética, depurativa: o “elogio da laranja”, como diz Lúcia C. Santos em seu livro sobre boas maneiras e culinária, “já está feito pelo consumo formidável que ela vem alcançando no mundo”. Seus gomos, envoltos pela fina película, são, segundo definição do escritor Fernando Sabino, a melhor, mais prática e duradoura embalagem que a natureza poderia ter criado para o delicioso suco que a fruta encerra.

Feijoada completa

Na feijoada, umas das mais típicas refeições brasileiras, a laranja, em gomos ou em pedaços, é servida à vontade juntamente com feijão, arroz, carnes e couve, sendo indispensável para “cortar a gordura” e atenuar a pimenta, refrescando o paladar.

Fonte: Livro Frutas Brasil Frutas

A história do figo

Nome da fruta – Figo

Nome científico – Ficus carica L.

Família botânica – Moraceae

Categoria – Doce

Origem – Ásia

Características da figueira – Árvore geralmente com até 5 metros de altura, caule tortuoso de casca cinzenta e lisa, ramos frágeis. Folhas recortadas em lobos. Flores muito pequenas, desenvolvendo-se no interior do receptáculo da inflorescência, conhecida como “fruta do figo”.

Fruto da figueira – O figo é um fruto tipo composto, denominado sicônio, é formado pela estrutura carnosa e suculenta de formato piriforme, comestível, de coloração verde-amarelada até roxa, conhecida como “figo”, encerra em seu interior numerosas sementes.

Frutificação da figueira – Conforme a poda, frutifica o ano todo

Propagação da figueira – Estaca

Entre as espécies vegetais cultivadas pela humanidade, a figueira é certamente uma das mais antigas. Para Pio Corrêa, tudo indica que o aproveitamento do figo na alimentação humana é tão antigo “que se perde na noite dos tempos”, havendo registros nesse sentido desde a Idade da Pedra até a Grécia Antiga. Segundo ele, a espécie, no entanto, é originária da Ásia Menor e da Bacia do Mediterrâneo, de onde ainda na Antiguidade, foi levada para outros países distantes.

De acordo com Antônio Roberto Marchese de Medeiros, engenheiro agrônomo da Embrapa, a evolução da figueira em estado selvagem para o de planta cultivada acompanhou os primórdios da civilização. Existem registros de que a fruta era enaltecida por gregos e romanos, que atribuíam ao deus Dionísio ou Baco a introdução do figo e da uva “para a alegria e riqueza da humanidade”. Também no Antigo e no Novo Testamentos existem várias passagens alusivas à figueira, considerada um símbolo de paz e de harmonia.

Com tantas referências históricas, sabe-se também que há muito tempo atrás a figueira já era cultivada nas regiões semi-áridas do sudoeste da Ásia, pelos povos do deserto, tendo sido introduzida no Egito, na Grécia e na Itália quase mil anos antes de Cristo.

Com a expansão do mundo árabe, a figueira foi também levada para a Península Ibérica, estabelecendo-se na Espanha e em Portugal.

Foi assim, com toda a sua história e mistérios, que as primeiras figueiras chegaram às terras brasileiras já no século 16. Verdadeiro símbolo da ocupação da terra pelos colonizadores, as figueiras logo passaram a ser cultivadas lado a lado dos marmeleiros e das laranjeiras.

Figueiras de todos os tipos, muitas delas improdutivas ou geradoras de frutos não comestíveis, espalharam-se por todo o continente. Segundo Pio Corrêa, porém, até o início deste século o plantio do figo bom para comer – o verdadeiro ficus carica – era muito disperso no Brasil e as quantidades produzidas, insignificantes. Embora excelentes variedades de figueiras – originárias, em grande parte, da Espanha, de Portugal e do norte da África – tivessem se aclimatado perfeitamente a diferentes regiões do país, seu cultivo não ultrapassava o limite das chácaras urbanas e dos quintais das fazendas.

Sob a orientação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), logo após a queda da produção cafeeira no início da década de 1930, deu-se um grande impulso à produção de figos associada à de uvas no Estado de São Paulo. Ali, passou a se destacar como produtora a região de Campinas, principalmente os municípios de Itatiba, Valinhos, Louveira e Jundiaí, além de Mogi das Cruzes, sendo algumas delas, até os dias de hoje, as mais produtivas.

Atualmente, o Estado de São Paulo é o maior produtor de figos do país, sendo apenas o município de Valinhos responsável por 90% do total. Normalmente, entre 20 a 40% dessa produção destina-se à exportação, que, em 2003, obteve um valor recorde: países como Inglaterra, França e Alemanha compraram do Brasil cerca de 1,5 milhão de caixas com 24 frutos cada uma.

No interior da casca fina e macia de coloração arroxeada, que se abre pela parte central, esconde-se a massa rosada no centro e esbranquiçada nas bordas. Desmanchando-se na boca, os figos têm um sabor que pode variar entre o insípido e o muito doce, sendo, no entanto, sempre muito refrescante.

Delicados, são frutas que se machucam facilmente, dificultando o acondicionamento, a preservação, o transporte e a comercialização ao natural. Talvez por esse motivo, desde os primórdios de sua utilização pelo homem, aprendeu-se a aproveitar de outras formas as qualidades altamente nutritivas e o sabor sofisticado dos figos.

De acordo com as características das flores, formas de polinização e de frutificação, existem quatro tipos de ficus carica: Caprifigo, Smirna, Comum e São Pedro Branco, sendo as variedades mais cultivadas em todo o mundo pertencentes ao tipo Comum.

No Brasil, ocorre o mesmo: a variedade Roxo de Valinhos (município do interior de São Paulo onde a produção de figos é bastante antiga e volumosa) é a mais cultivada comercialmente e pertence, também, ao tipo Comum. Também conhecida como Brown Turkey, San Piero ou Negro Largo, entre as principais características dessa variedade de figueira está a sua rusticidade que, acrecida do vigor e da boa produtividade que apresenta, a torna cultura bastante lucrativa.

A figueira desenvolve-se bem nas regiões subtropicais temperadas, mas tem grande capacidade de adaptação climática. Pio Corrêa exemplifica elegantemente essa qualidade dizendo que a figueira é capaz de se adaptar “às condições de existência as mais diversas e até as mais opostas”, sendo encontrada “desde a beira-mar, nas dunas ardentes da Líbia, até as planícies frias dos Andes, a mais de 3 mil metros de altitude”.

Essa capacidade de adaptação reflete-se, também, no porte da árvore, que pode variar muito conforme o clima da região em que tenha nascido e o tratamento que lhe for dispensado. Nas regiões próximas ao mar Mediterrâneo que lhes deram existência, quando deixadas à vontade para crescer, as figueiras chegam a atingir o porte de árvores enormes. Por outro lado, quando mantidas sob poda drástica, nos climas do Sul do Brasil, as figueiras podem ser conduzidas de modo a não ultrapassar o porte arbustivo.

Doces figos

De acordo com a sua destinação futura, sejam provenientes de pomares caseiros ou comerciais, os figos devem ser colhidos em diferentes estágios de maturação: os verdes destinam-se basicamente à confecção de doces em calda ou cristalizados; os mais inchados são usados para a produção do figo “rami”, espécie de fruta passa; os maduros ainda não rachados são próprios para a produção de doces em pasta ou da figada de cortar, ou ainda para o consumo ao natural.

O fruto da figueira

O figo, aquele conjunto carnoso avermelhado e completamente comestível, é erroneamente identificado como o “fruto da figueira”. No entanto, todo esse conjunto não passa de uma inflorescência. Ou seja, o figo propriamente dito nada mais é do que o receptáculo carnoso em cujo interior encontram-se os verdadeiros frutos: as minúsculas sementinhas que permanecem envolvidas pelos restos das flores da figueira.

Fonte: Livro Frutas Brasil Frutas

A história do cacau

Nome da fruta – Cacau

Nome científico – Theobroma cacao L.

Família botânica – Sterculiaceae

Categoria

Origem – Brasil – região amazônica

Características do cacaueiro – Árvore geralmente com 6 metros de altura. Folhas grandes e pendentes. Flores pequenas, de coloração alva, amarela ou rósea, reunidas em inflorescências que surgem no caule.

Fruto do cacaueiro – O cacau é um fruto tipo cápsula, de forma alongada, com sulcos longitudinais, de coloração amarelo-esbranquiçada até vermelho-escura. Polpa mucilaginosa, de coloração alva ou rósea, envolvendo numerosas sementes.

Frutificação do cacaueiro – Duas vezes ao ano, sendo mais intenso no outono e primavera.

Propagação do cacaueiro – Semente

O cacau é fruto de origem e destino nobre. Seu nome vem de uma lenda asteca antiga que conta a história de Quetzalcoate, deus agricultor asteca que ensinou seu povo a cultivar e a utilizar o cacaueiro. Manjar dos deuses, ou “theobroma” em grego: foi esse o nome escolhido, em 1737, pelo botânico sueco Carl von Linneu, para denominar a espécie de frutos à qual pertence o cacau e que também incluiu seu parente amazônico, o famosos cupuaçu e outras tantas frutas silvestres.

Antes da chegada dos europeus à América, no final do século 15, apenas os povos maia e asteca, habitantes da zona compreendida entre o México e a América Central, utilizavam o cacau de maneira completa e sistemática.

Segundo Clara Inés Olaya, o processo utilizado por esses povos antigos consistia basicamente no seguinte: primeiro, as amêndoas do fruto maduro do cacau eram retiradas e colocadas para secar ao Sol por alguns dias. Após a secagem, as amêndoas eram torradas. Depois, eram moídas e remoídas seguidas vezes em moinhos manuais de pedra. Nesse processo, acrescentava-se água, pouco a pouco, até que se formasse uma pasta espessa da fruta. Essa pasta era ainda batida para se transformar numa espécie de bolo firme, que podia ser armazenado e transportado.

Assim, o cacau – puro ou misturado com outros ingredientes, aromas e temperos – transformava-se na bebida que ficou conhecida como chocolate. Com a adição do açúcar e das especiarias asiáticas, essa bebida encontrou ainda mais admiradores e ganhou o mundo.

O fruto do cacaueiro e os produtos dele obtidos estiveram sempre, nos últimos dois mil anos da história ocidental, intimamente ligados ao poderio econômico e à satisfação de prazeres sofisticados.

Para os povos maia e asteca, o cacau foi objeto de culto, riqueza e poder. Esses povos aprenderam a domesticar e a cultivar a planta, dando valor de moeda à sua amêndoa. E, com ela, inventaram o chocolate, bebida considerada afrodisíaca. Verdadeira árvore de frutos de ouro – ouro vegetal – o cacaueiro significou poder e riqueza para os espanhóis que chegaram à América. Introduzido por representantes da Igreja Católica na Europa, o chocolate foi objeto de desejo, intrigas e mistérios nas cortes europeias, já a partir do início do século 16. O cacau foi também, pouco mais tarde, objeto de contrabando e pirataria de navegadores holandeses e ingleses, sempre em busca de grandes lucros.

Na Europa do final do século 17, o consumo do chocolate como bebida generalizou-se, ampliando consideravelmente a demanda pela produção de cacau. No entanto, foi apenas no início deste século que o suíço Lindt desenvolveu as máquinas e as técnicas necessárias para a produção industrial da pasta sedosa, maleável, quase líquida, que endurece tomando a forma do recipiente em que é colocada. Daí em diante, o chocolate converte-se numa guloseima que movimenta uma das mais importantes e ricas indústrias do mundo moderno.

No Brasil, mais precisamente no sul da Bahia, as primeiras sementes de cacau para cultivo em larga escala foram introduzidas apenas no século 18. Logo descobriu-se que o clima e o solo da região eram excepcionais para a disseminação de grandes plantações de cacau.

Desde o século seguinte, por quase 150 anos, o cacau transformou-se em símbolo de poder e riqueza entre os “coronéis” que foram se instalando em ricas fazendas na região de Ilhéus e de Itabuna. Ali, a busca do ouro terminaria à sombra dos cacauais. Nesse período, o Brasil tornou-se o maior produtor e exportador de cacau do mundo, dominando praticamente todo o mercado internacional.

A saga do cacau transformou a paisagem da região: nasceram belíssimos cacauais, bem formados, limpos e sombreados, com árvores repletas de frutos amarelos e vermelhos; desenvolveram-se cidades e portos movimentados, de vida cultural e intensa e protagonistas de muitas histórias de amor e ódio. Por muito tempo, no sul da Bahia, o cultivo do cacau permaneceu como uma atividade bastante rentável.

Porém, as últimas décadas do milênio assistiram à decadência da produção cacaueira no sul da Bahia. Entre os principais motivos desse processo destacam-se: a queda e a oscilação do preço do cacau no mercado internacional, a concorrência com produtores dos países africanos, com destaque para Gana, a falta de investimentos em técnicas modernas de plantio e, principalmente, a praga conhecida como “vassoura-de-bruxa”, que infestou as plantações baianas. O conjunto desses problemas provocou um grande impacto social negativo, com o total desequilíbrio econômico e ambiental da região.

Embora a produção tenha se reduzido drasticamente, em virtude da falta de tecnologias para o controle da praga e do abandono das propriedades rurais, antigas produtoras de cacau, o Brasil continua na lista dos principais exportadores do mundo. Só que agora ele é produzido também em outras paisagens: na Amazônia, nos estados do Pará e de Rondônia e no Sudeste do país.

Subprodutos anteriores à produção do chocolate, tais como a manteiga e o óleo extraídos por pressão das amêndoas do cacau e os resíduos dessa extração, são também componentes muito importantes na industria cosmética e farmacêutica. Além disso, com a polpa  esbranquiçada que envolve as amêndoas do cacau, pode ser feito, industrializado e congelado um delicioso e nutritivo suco, sem prejuízo para o seu processamento posterior.

Dados do Ministério da Agricultura, informam que, no Brasil, as exportações de cacau e de seus derivados aumentaram mais de 50% em 2003, saltando de 206 milhões de dólares em 2002 para 321 milhões no ano seguinte.

Porém, nem bem o Brasil começa a se recuperar do baque da “vassoura-da-bruxa”, e todas as plantações do país já começam a se precaver do ataque de outra praga proveniente do estrangeiro: a ameaça da monília, cujos efeitos sobre os frutos do cacaueiro são ainda mais devastadores.

Variedades nativas e silvestres de cacau

Sabe-se hoje que o cacau é originário do continente americano, provavelmente das bacias dos rios Amazonas e Orenoco, de onde se espalhou. Especialmente na região amazônica, em meio às matas densas da floresta tropical, ainda se encontram variedades nativas da mesma espécie, em estado silvestre. Assim como seus parentes mais famosos, a maioria das sementes dos frutos do gênero theobroma dá excelente chocolate.

Nome da fruta – Cacaurana

Nome científico – Theobroma bicolor Humb. & Bompl.

Origem – México, América Central e América do Sul

A cacaurana floresce em árvores bem diferentes do cacaueiro comum. Bastante altas, elas chegam a mais de 20 metros de altura e produzem um fruto amarelo-esverdeado totalmente reticulado. A cacaurana oferece muito pouco o que comer, sendo raramente comercializada.

Nome da fruta – Cacauí

Nome científico – Theobroma speciosum Willd. ex Spreng.

Origem – Região amazônica até América Central

O cacauí, como a cacaurana, também é amarelo e sulcado. Nasce em árvores um pouco menores que ela, chegando a 10 metros de altura. Os frutos, no entanto, desenvolvem-se na parte mais baixa do tronco. Destaca-se, no cacauí, a beleza de suas flores, de um tom carmim avermelhado, muito vivo, que ficam compostas ao longo de todo o tronco da árvore, desde a base. Segundo Paulo Cavalcante, elas exalam um forte odor capim-santo, também conhecido como capim-de-cheiro, capim-limão ou capim-cidreira.

Nome da fruta – Cupuí

Nome científico – Theobroma subincanum Mart.

Origem – Brasil – região amazônica

O cupuí encontra-se por toda a Amazônia, geralmente habitando as margens dos igarapés em meio à mata virgem. É muito semelhante ao cupuaçu, apenas de tamanho menor, tendo herdado de seu parente mais famoso a casca resistente espessa. Apesar de terem pouca polpa, são os frutos prediletos dos macacos da floresta.

Fonte: Livro Frutas Brasil Frutas